farewell

hands

imagem do I ♥ it 

Sentiu a mão dele em sua perna e um arrepio por todo o corpo. Respirou fundo e entrelaçou seu dedos. Precisava resistir a tentação que aquele toque causava. O pôr-do-sol brincava com as cores tornando a cena tão nostálgica que seu coração apertou e seu corpo tomou uma postura rígida.

“O que houve?”

“Nada…”, mas sabia que ele não acreditaria. A mão dele apertou sua perna, uma resposta à evasão. Abriu a boca novamente e não disse nada. Tomou o capuccino que já estava meio frio.

Os sentimentos brigavam dentro de si. Queria se jogar plenamente naquele instante, sem arrependimentos ou temores. Entretanto, a vida não era tão simples assim. Sempre haveria o instante seguinte, o próximo dia e ela não queria lidar com o vazio que restaria. Há muito tomara esta decisão. Só não imaginava o quanto doeria.

“Vamos?”, ele levantou-se e estendeu a mão a ela.

“Melhor não. Acho que vou tomar um café ainda.”

“Não irei deixá-la aqui sozinha. Me deixe ao menos te levar em casa”

Ela queria ser forte. Precisava ser. Por ela, por ele, por todos que estavam envolvidos. Nada naquela situação fora premeditado, mas ainda assim a vida lhe soava tão injusta. Amava-o tanto, só que era o tempo errado. Os caminhos cursaram por outros traçados. Precisa aceitar. Não seria tão difícil, era uma pessoa resignada. Todavia a dor daquela separação estava dilacerando cada pedacinho seu.

Deu-lhe a mão e uma onda de eletricidade os uniu em um abraço apertado. O abraço do adeus. Ele sabia que estavam se despedindo. Tudo isso o fazia amá-la e desejá-la mais. Era uma decisão tomada a tanto tempo que só lhe cabia respeitar. E doía. Doía porque não conhecera ninguém tão livre quanto ela, doía porque queria experimentar aquele amor mais puro, mas chegara tarde demais.

Os lábios se encontraram, o gosto salgado das lágrimas e amargo do café misturados, mas tão doce quanto pode ser o beijo de uma despedida.

 

cenas finais

Ela dançava nua ao som de Belchior e à meia luz do corredor, estava compenetrada no momento, uma feição serena. Ele a observava do escritório, como que na surdina. Era uma cena quase idílica e ele sorriu. Era uma inspiração. Há tempos não escrevia, há tempos não escrevia sobre ela, sobre eles.

As palavras vieram, saltando em sua mente. A silhueta dela, desenhada na parede em labaredas. A música criando um ar fértil. Um momento suave. Escrevia, sem ver o que se formava. Não conseguia tirar os olhos da bela figura, ou melhor, da bela cena. Era como um filme antigo de romance. Um clássico.

Ela. Ela. Ela. Tão em si, quase um transe, uma meditação. O coração se transbordou. E a tela de fez em poesia.

Sentiu vontade de levantar e ir até ela, deslizar as mãos em sua cintura, puxá-la para si. Sussurrar a paixão que lhe brotava. Sentir o arrepio da pele dela. Mas era egoísta tirá-la daquele momento. Continuou sorrindo, expectador.

“Oi”, sorriu tímida pela porta

Ele não percebera que ela fora até ali.

“Terminou? Vamos tomar um banho, um vinho?”Ele riu da falsa timidez no tom dela.

Era um convite, agora poderia participar. As mãos se entrelaçaram. E o filme chegou ao fim, sem cenas ao fim dos créditos.

 

skydiving

parachute

imagem do we ♥ it

você está pronta?

a vontade real era dizer não. mas era uma promessa feita a si mesma. precisava cumpri-la e sentir que estava vivendo. o coração acelerado pelo medo da nova aventura de certa forma a acalentava. quantas noites não acordara com aquela sensação angustiante, paralisada com temores inúteis? era hora de fazer uma loucura para si.

respirou fundo e o olhou nos olhos, procurando a coragem perdida. ele sorriu e estendeu-lhe a mão. calma. como ele conseguia ser tão sereno? quanta paz sentia dentro daquele olhar. o pensamento de desistir desapareceu. haviam combinado aquilo há tanto tempo. não podia deixar faltar a cumplicidade que os ligava. we are partners. 

vamos!

antes mesmo que terminasse de falar, os pés já não estavam mais no avião. mergulhou naquele céu de brigadeiro. já não escutava mais nada. manteve os olhos aberto, captando tudo. queria procurá-lo, devia estar um pouco acima. gritou, mas a pressão era tanta que nem se escutou. já estavam chegando.

os pés tocaram o chão. queria correr, queria gritar, queria chorar. o instrutor a soltou do cinto e ela foi para os braços do rapaz que acabara de descer. sorriam. você conseguiu. era o que o rosto dele dizia. chorou dentro daquele abraço. pela coragem, pelos segundos de medo que não pôde chorar, pela calmaria que crescia dentro dela. o salto era só um item da lista, mas já mudara tanta coisa.

você só precisa dar o primeiro passo. 

moving

janela

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Um roque, uisque barato e a tentativa ridícula e falha de um cigarro. À meia luz de um pôr-do-sol de verão, a melancolia preenche a alma. Cecília observava a janela, buscava inspiração ou talvez a vontade de viver perdida nas decisões erradas. Os objetos permaneciam espalhados pelo pequeno apartamento, jogados na ira. Quanto descontrole para a menina tão certinha.

Bebeu o resto do uísque, enquanto secava as lágrimas. Não sabia onde ou quando perdera as forças. Estava paralisada. Não conseguia entender ou talvez apenas não quisesse. As imagens vinham à mente mesmo sem invoca-las. Um tempo quando a felicidade inundava. Para onde fora aquele sentimento? Achava que teria aquela sensação para sempre. Sempre…

A música parou de tocar, o sol se pôs, o cigarro ainda estava se queimando sozinho no cinzeiro. Cecília esperava um barulho na porta; acabou por adormecer na poltrona. Dormiu sem sonhos, como quem já não tem mais esperanças.

A verdade, dolorida, era que juntara tudo e partira com a crença de que era o mais certo a se fazer. Não pensou nas consequências e agora queria voltar a atrás, mas não podia mais. Outros compromissos foram feitos. Sentiu-se fraca, sem poder compreender a impulsividade que a movia. Planos e planos para no último segundo mudar tudo.

Era questão de tempo, de se ajeitar e se encaixar. As saudades ficariam para trás. E o novo mundo se abriria para ela. Cecília ainda era sonhadora, e mudanças a assustavam. No começo é tudo meio confuso e amedrontador. Depois se vê as bagagens que traz.

desordens

large

foto do we ♥ it

Um coração que bate acelerado

A acompanhar uma vida que passa rápido

Mas lentifica quem a vive

Tantas coisas que acontecem,

Uma respiração que não acompanha

Os passos de quem quer viver

Tentando não se perder

Nos dia-a-dias tão cheios

Os lábios não apanham

Todas as palavras desse pensamento

Às vezes os vocábulos faltam

Ou se juntam a outros

E se perdem em sentidos

Tal como a vida…

…perdida em momentos

Que não concretizam

it’s gonna be fine

Fotos Iphone 20-08-2015 229
“Vai dar certo”

Quantas vezes escutei ou proferi tais palavras? Às vezes por dentro eu achava que tudo estava se desfazendo, que não existiam soluções. Entretanto, nunca fui de acabar com a esperança alheia e no fundo, eu mesma quis acreditar em tal mantra.O tempo passou, longo e pesado, mas veloz. As lembranças se misturam tal qual as tintas que pintava no jardim. Algumas com cores tão vivas; outras tão cinzentas. Agora são memórias. Uma paleta nova se faz a minha frente.Sinto medo, a autoconfiança dura quase um segundo e me paraliso diante dos olhares. Esperam de mim tanto e questiono o que de fato sei. Vale o improviso? O amor pelo que se faz conta?Certa vez disseram-me que os bons sentem medo. Não me sinto confiante com isso. De certo, trouxe um aconchego. Talvez eu não seja tão ruim.Volto a repetir o mantra. Bem de leve, quem sabe assim eu acredite? Vai dar certo. Aos trancos, até agora tudo se encaixou. Não há lugar para amarelar, como dizem por aí, vai com medo mesmo.

Texto para minha amiga e colega de profissão, Rebecca Noguchi

sentimentário

journal

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Ela leu a última linha com um sorriso no canto dos lábios e os olhos marejados. Gostava de reler seus diários. Era a prova do quanto havia mudado e amadurecido ou mesmo a prova do quanto ainda precisava amadurecer.

Aos vinte e tantos anos, quase trinta, uma boa carreira sendo deslanchada, as pessoas de convívio mais íntimo a perguntavam o porquê de ter diário. Não é bem um diário, não é como se eu escrevesse os meus dias. É mais um sentimentário. O pensamento nunca verbalizado. Apenas quem possui o hábito sabe a importância dele. Cecília precisava daquilo. Era uma ferramenta de conhecimento e por que não de mudanças?

Os erros que cometemos sem entender os motivos, estavam ali. Agora ela avaliava tudo com outro olhar. Às vezes doía tanto, finalmente compreender porque certa situação tomara tal rumo. Ela queria fazer diferente, mas era tarde. Ou não, era apenas um caminho que se formaria independente.

A Cecília de 15 anos era tão mais extrovertida e impulsiva. A de 20 começara a demonstrar a personalidade que a definiria agora. Tantas coisas vividas que ela quase não lembrava. Pessoas que foram embora sem explicação. Reler significava também melancolia, as palavras, assim como as ganhavam novo significado.

Quando ele entrou no quarto, perguntando se ela queria um chá, as lágrimas caíram sem que pudesse conter. Não era tristeza. Era o transbordar de algo que a cada novo significado a enchia de amor e segurança.