sobre escrever e sobre mim

Quando eu parei de escrever? Nem me lembro mais. Escrevo coisas cotidianas, textos sem sentidos, diários, prontuários. Mas parece que perdi a poesia da escrita, a literariedade. Eu escrevo e não me reconheço, parece sem sal e sem amor. Começo poemas e eles não têm ritmo, parecem forçados demais. Será o significado da minha vida agora? Escrever sempre foi parte de mim, mas de repente eu a perdi.

unburden

eu acordo cedo, o sol ainda não nasceu. o aroma do café vem da cozinha e eu observo o dia começar. às vezes estou muito cansada, queria permanecer na cama, mas a culpa invade cada pedaço do meu ser. é normal isso? repasso as tarefas na cabeça tentando não me perder no amontoado de coisas. sento em enfrente aos papéis e ao computador. o café esfriou e eu não tomei nem a metade. jogo fora. faço outro. o sol já apareceu. o que eu fiz? li algumas coisas, mas não o necessário. o tempo vai passando. as funções vão ficando. você também se sente sufocado?

tal qual

steps

Imagem do We ♥ It

a criança vestida com roupas da mãe
o reflexo no espelho e o batom borrado
estou bonita?
a bolsa grande demais para os pequenos ombros
não há nada como o exemplo,
a criança que copia o adulto

os anos passam
ela continua “roubando-lhe” as roupas
no espelho o reflexo quase igual
um olhar mais castanho, menos sabedoria
toda uma vida ainda pela frente
mas Belchior já dizia
como nossos pais
era um elogio
há muito o que aprender
e não há nada como o exemplo
tal mãe, tal filha

feliz dia das mães ♥

seelenverwandte

às vezes eu sinto falta das conversas. sabe, nós sentávamos um em frente ao outro e falávamos todo o tipo de coisa. aconteceu tudo tão rápido. um dia você era só um estranho, no outro a pessoa que eu mais ansiava encontrar. é estranho porque não lembro quando ou como tudo se iniciou, mas lembro do momento em que não falar contigo causava um estranhamento no meu corpo. como naquele poema saudade causa incômodo físico. é bem isso. dor. as entranhas se contorcendo. eu sentia medo deste momento. ele aconteceu, quase que da mesma forma como o início de tudo. um dia você voltou a ser um estranho. mas não “só um estranho”. o estranho que me conhece, como um psicopata que estuda suas vítimas. eu sei que você riria desta comparação. e é isso que faz falta, as piadas de humor questionável, as besteiras em meio aos caos sérios. as pessoas achavam que éramos amantes. talvez fôssemos, mas nada desta forma convencional. era só uma ligação profunda de gente que se entende logo de cara. como dois amigos que se revêm no bar depois de anos afastados, como velhos espíritos que se reencontram. eu sinto falta dos silêncios também. uma cena me vêm à mente: sentamos lado a lado na banco da pracinha. e só. perdemos a hora na falta de palavras. elas não eram necessárias. nunca foram para sermos sinceros. falávamos aos montes porque nossas mentes são inquietas, mas nos conhecíamos nas entrelinhas do que não era exposto. eu achava tão sensacional. e por isso agora tenha este vazio gigante. um aumento da entropia dos meus pensamentos que não são lidos por você.

sonntag

Domingos eram os dias preferidos de Cecília. As pessoas costumavam rir quando ela comentava. Havia um sentimento que vinha desde a infância, algo bom e de pertencimento que a fazia se sentir aconchegada. Lembrava-se de assistir corridas de Fórmula 1 com o pai nas manhãs e de almoçar com os avós, dormia cedo porque no outro dia tinha aula. Ela amava a escola. Era o dia que se permitia à preguiça de dormir um pouco mais, ler o livros ou simplesmente se jogar em frente à tv. Mais ao fim do dia, sentava-se para planejar a semana. As ruas ficavam vazias, pessoas em casa ou nas casas dos parentes, os comerciantes se dando o merecido descanso. O que mais gostava de domingo era a possibilidade de mil coisas que viria na semana. Domingos eram recomeços.

Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

americanah

Muito tempo que não falo de livros por aqui. Porém não podia deixar essa leitura passar sem comentários. Conheci a Chimamanda depois que lançaram o livro Sejamos todos feministas que é uma transcrição de um discurso da autora. Para ser sincera não o li. Entretanto, na época ela apareceu muito na mídia, e eu estava buscando novas leituras. Resolvi ler Hibisco roxo. Um livro maravilhoso e muito tocante. Chimamanda tem uma escrita deliciosa, deixando assuntos sérios e pesados com um tom mais leve de ler, mas sem tirar a retidão ou o caráter reflexivo das situações que se apresentam.

Terminei de ler Americanah há alguns dias. É um livro que precisa ser lido. A história começa com  a decisão de Ifemelu, uma nigeriana radicada nos Estados Unidos, de voltar ao sei país de origem. A partir daí, voltamos ao passado dela, sua relação com a família,  com os amigos, amores e as motivações que a levaram se mudar de país e como foi ser estrangeira, negra, africana num país como os EUA. É muito interessante a leitura e me fez (re)considerar muitas coisas.

O preconceito é muito enraizado na nossa cultura. Todos temos em algum grau certo preconceito e é algo tão profundo que não percebemos. Ler este livro mostrou muita coisa a respeito disso. Tem uma passagem em que Ifemelu diz só se tornou negra nos EUA. Foi lá que ela tomou consciência disso. E mesmo para os negros americanos existe uma grande diferenciação em tratamentos, visão de vida e principalmente na auto-imagem. Esta dualidade foi uma das coisas que mais me chamou a atenção.

Americanah é um livro fantástico! Centrado no romance de Ifemelu e Obinze, com uma linguagem simples e crua. As questões como imigração, refúgio, ensino e todos os esteriótipos que temos sobre a África são colocados ali de uma maneira sincera, mas Chimamanda consegue deixar a reflexão sem soar hostil. Inclusive, enquanto lia algumas entrevistas dela e outras resenhas sobre o livro, a autora foi questionada sobre não ter nuance ou sutileza no livro. Não achei nada disso. É espontâneo e assertivo.

Apesar de ter preferido Hibisco roxo, Americanah foi uma leitura importante e necessária.

 

spontaneity

davImagem do We ♥ It

Cecília senta-se no banco central da praça. Para quem presa pela discrição, a escolha deste banco soa um paradoxo. É também controverso pelo fato de que está ali para observar e detesta que a observem. O mal do escritor, ela diria, é que precisa ler o que está a sua volta, mesmo que odeie que os leiam; a não ser claro, que sejam seus livros, contos, poema, crônicas…enfim, seus trabalhos.

A versatilidade da praça a encanta. Algumas pessoas correm, por hobby, esporte ou porque estão atrasadas. Há crianças brincando, cachorros correndo, famílias passeando, adolescentes expressando sua rebeldia com skates ou fumando maconha em plena luz do dia. Quando foi que isso se tornou tão natural? Quando foi que fiquei tão velha? As pessoas passam aos montes, solitárias ou em grupos. Cecília reconhece algumas cartas repetidas.

Hoje ela nada escreve, nem lê. Só olha, meio perdida em pensamentos. Tenta meditar, mas está um pouco desconectada. Então deixa tudo passar, as informações externas e internas. Há de vir alguma ideia, uma faísca. Ou nada. Ela se sente frustrada. Há mais de meses não consegue esboçar nem um mísero parágrafo que lhe agrade. Muitas vezes, escrevia tudo o que vinha e dilapidava aos poucos. Agora sentia tudo travado.

O sol se punha vagarosamente, formando cores diversas. Os cheiros de pipoca e churros invadiram seu nariz. Huuuummmm… Será que comer lhe daria inspiração? Talvez não, mas valia a satisfação. Esperou na fila enquanto uma garotinha comprava churros com confetes. Seus olhares se encontraram e a criança lhe sorriu toda lambuzada.

Aquela simplicidade lhe mexeu. Costumava ser assim, como uma criança suja de doce. Cheia de espontaneidade e sorrisos. Era aquilo que lhe faltava, estava reprimindo seus instintos. Sentia-se livre, mas de certa forma, falsamente. Não se permitia mais a livre expressão. A criatividade revidou, bloqueada.

Com o churros na mão, correu para casa e escreveu sobre a praça e tudo que lá encontrara.