seelenverwandte

às vezes eu sinto falta das conversas. sabe, nós sentávamos um em frente ao outro e falávamos todo o tipo de coisa. aconteceu tudo tão rápido. um dia você era só um estranho, no outro a pessoa que eu mais ansiava encontrar. é estranho porque não lembro quando ou como tudo se iniciou, mas lembro do momento em que não falar contigo causava um estranhamento no meu corpo. como naquele poema saudade causa incômodo físico. é bem isso. dor. as entranhas se contorcendo. eu sentia medo deste momento. ele aconteceu, quase que da mesma forma como o início de tudo. um dia você voltou a ser um estranho. mas não “só um estranho”. o estranho que me conhece, como um psicopata que estuda suas vítimas. eu sei que você riria desta comparação. e é isso que faz falta, as piadas de humor questionável, as besteiras em meio aos caos sérios. as pessoas achavam que éramos amantes. talvez fôssemos, mas nada desta forma convencional. era só uma ligação profunda de gente que se entende logo de cara. como dois amigos que se revêm no bar depois de anos afastados, como velhos espíritos que se reencontram. eu sinto falta dos silêncios também. uma cena me vêm à mente: sentamos lado a lado na banco da pracinha. e só. perdemos a hora na falta de palavras. elas não eram necessárias. nunca foram para sermos sinceros. falávamos aos montes porque nossas mentes são inquietas, mas nos conhecíamos nas entrelinhas do que não era exposto. eu achava tão sensacional. e por isso agora tenha este vazio gigante. um aumento da entropia dos meus pensamentos que não são lidos por você.

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sonntag

Domingos eram os dias preferidos de Cecília. As pessoas costumavam rir quando ela comentava. Havia um sentimento que vinha desde a infância, algo bom e de pertencimento que a fazia se sentir aconchegada. Lembrava-se de assistir corridas de Fórmula 1 com o pai nas manhãs e de almoçar com os avós, dormia cedo porque no outro dia tinha aula. Ela amava a escola. Era o dia que se permitia à preguiça de dormir um pouco mais, ler o livros ou simplesmente se jogar em frente à tv. Mais ao fim do dia, sentava-se para planejar a semana. As ruas ficavam vazias, pessoas em casa ou nas casas dos parentes, os comerciantes se dando o merecido descanso. O que mais gostava de domingo era a possibilidade de mil coisas que viria na semana. Domingos eram recomeços.

Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

americanah

Muito tempo que não falo de livros por aqui. Porém não podia deixar essa leitura passar sem comentários. Conheci a Chimamanda depois que lançaram o livro Sejamos todos feministas que é uma transcrição de um discurso da autora. Para ser sincera não o li. Entretanto, na época ela apareceu muito na mídia, e eu estava buscando novas leituras. Resolvi ler Hibisco roxo. Um livro maravilhoso e muito tocante. Chimamanda tem uma escrita deliciosa, deixando assuntos sérios e pesados com um tom mais leve de ler, mas sem tirar a retidão ou o caráter reflexivo das situações que se apresentam.

Terminei de ler Americanah há alguns dias. É um livro que precisa ser lido. A história começa com  a decisão de Ifemelu, uma nigeriana radicada nos Estados Unidos, de voltar ao sei país de origem. A partir daí, voltamos ao passado dela, sua relação com a família,  com os amigos, amores e as motivações que a levaram se mudar de país e como foi ser estrangeira, negra, africana num país como os EUA. É muito interessante a leitura e me fez (re)considerar muitas coisas.

O preconceito é muito enraizado na nossa cultura. Todos temos em algum grau certo preconceito e é algo tão profundo que não percebemos. Ler este livro mostrou muita coisa a respeito disso. Tem uma passagem em que Ifemelu diz só se tornou negra nos EUA. Foi lá que ela tomou consciência disso. E mesmo para os negros americanos existe uma grande diferenciação em tratamentos, visão de vida e principalmente na auto-imagem. Esta dualidade foi uma das coisas que mais me chamou a atenção.

Americanah é um livro fantástico! Centrado no romance de Ifemelu e Obinze, com uma linguagem simples e crua. As questões como imigração, refúgio, ensino e todos os esteriótipos que temos sobre a África são colocados ali de uma maneira sincera, mas Chimamanda consegue deixar a reflexão sem soar hostil. Inclusive, enquanto lia algumas entrevistas dela e outras resenhas sobre o livro, a autora foi questionada sobre não ter nuance ou sutileza no livro. Não achei nada disso. É espontâneo e assertivo.

Apesar de ter preferido Hibisco roxo, Americanah foi uma leitura importante e necessária.

 

spontaneity

davImagem do We ♥ It

Cecília senta-se no banco central da praça. Para quem presa pela discrição, a escolha deste banco soa um paradoxo. É também controverso pelo fato de que está ali para observar e detesta que a observem. O mal do escritor, ela diria, é que precisa ler o que está a sua volta, mesmo que odeie que os leiam; a não ser claro, que sejam seus livros, contos, poema, crônicas…enfim, seus trabalhos.

A versatilidade da praça a encanta. Algumas pessoas correm, por hobby, esporte ou porque estão atrasadas. Há crianças brincando, cachorros correndo, famílias passeando, adolescentes expressando sua rebeldia com skates ou fumando maconha em plena luz do dia. Quando foi que isso se tornou tão natural? Quando foi que fiquei tão velha? As pessoas passam aos montes, solitárias ou em grupos. Cecília reconhece algumas cartas repetidas.

Hoje ela nada escreve, nem lê. Só olha, meio perdida em pensamentos. Tenta meditar, mas está um pouco desconectada. Então deixa tudo passar, as informações externas e internas. Há de vir alguma ideia, uma faísca. Ou nada. Ela se sente frustrada. Há mais de meses não consegue esboçar nem um mísero parágrafo que lhe agrade. Muitas vezes, escrevia tudo o que vinha e dilapidava aos poucos. Agora sentia tudo travado.

O sol se punha vagarosamente, formando cores diversas. Os cheiros de pipoca e churros invadiram seu nariz. Huuuummmm… Será que comer lhe daria inspiração? Talvez não, mas valia a satisfação. Esperou na fila enquanto uma garotinha comprava churros com confetes. Seus olhares se encontraram e a criança lhe sorriu toda lambuzada.

Aquela simplicidade lhe mexeu. Costumava ser assim, como uma criança suja de doce. Cheia de espontaneidade e sorrisos. Era aquilo que lhe faltava, estava reprimindo seus instintos. Sentia-se livre, mas de certa forma, falsamente. Não se permitia mais a livre expressão. A criatividade revidou, bloqueada.

Com o churros na mão, correu para casa e escreveu sobre a praça e tudo que lá encontrara.

 

farewell II

hug

imagem I♥it

está escuro e eu tateio te procurando na cama. você não está. abro os olhos procurando entre os vultos, o contorno do teu corpo. sinto aquele aperto, como se estivesse ido para sempre. este dia chegará e não estou pronta. te acho sentado na varanda. chego de mansinho e me aconchego em seu colo. você apenas me abraça. eu sei que seu pensamento é o mesmo e me premo mais em ti. não quero chorar, mas já estou. você faz um cafuné na minha cabeça e beija meu pescoço. é sua forma de dizer, daremos um jeito. eu quero acreditar, quero ter esperanças, mas cada encontro é uma despedida dolorosa.

contorno seu rosto com as mãos, como um criança reconhecendo a mãe. estou gravando tudo, seu cheiro, a forma como seu cabelo bagunça, sua voz. canta para mim. sua voz desafinada, grogue pelo sono e pelo choro que não quer deixar sair, é a coisa mais linda que escuto. o amor é idiota. é sim! mas não ligo. só queria que hoje durasse para sempre. coloco aquela música da cássia eller com o nando reis. era nossa. quando nos conhecemos e agora quando começamos a nos despedir.

eu espero você dormir e beijo seus lábios. estou indo embora. é por isso que nunca devíamos ter começado. sabíamos que acabaria. eu tinha hora pra partir. mas você me carregou para sua vida de uma forma que eu não consegui sair. sinto muito por tudo que mudou. eu quero voltar. mas hoje preciso ir. eu sei que entende. você mesmo disso que nossas loucuras combinavam. não vou pedir que me espere, nem que vá comigo. só nunca esqueça que senti tudo na maior intensidade que me cabia. achei que explodiria.

farewell

hands

imagem do I ♥ it 

Sentiu a mão dele em sua perna e um arrepio por todo o corpo. Respirou fundo e entrelaçou seu dedos. Precisava resistir a tentação que aquele toque causava. O pôr-do-sol brincava com as cores tornando a cena tão nostálgica que seu coração apertou e seu corpo tomou uma postura rígida.

“O que houve?”

“Nada…”, mas sabia que ele não acreditaria. A mão dele apertou sua perna, uma resposta à evasão. Abriu a boca novamente e não disse nada. Tomou o capuccino que já estava meio frio.

Os sentimentos brigavam dentro de si. Queria se jogar plenamente naquele instante, sem arrependimentos ou temores. Entretanto, a vida não era tão simples assim. Sempre haveria o instante seguinte, o próximo dia e ela não queria lidar com o vazio que restaria. Há muito tomara esta decisão. Só não imaginava o quanto doeria.

“Vamos?”, ele levantou-se e estendeu a mão a ela.

“Melhor não. Acho que vou tomar um café ainda.”

“Não irei deixá-la aqui sozinha. Me deixe ao menos te levar em casa”

Ela queria ser forte. Precisava ser. Por ela, por ele, por todos que estavam envolvidos. Nada naquela situação fora premeditado, mas ainda assim a vida lhe soava tão injusta. Amava-o tanto, só que era o tempo errado. Os caminhos cursaram por outros traçados. Precisa aceitar. Não seria tão difícil, era uma pessoa resignada. Todavia a dor daquela separação estava dilacerando cada pedacinho seu.

Deu-lhe a mão e uma onda de eletricidade os uniu em um abraço apertado. O abraço do adeus. Ele sabia que estavam se despedindo. Tudo isso o fazia amá-la e desejá-la mais. Era uma decisão tomada a tanto tempo que só lhe cabia respeitar. E doía. Doía porque não conhecera ninguém tão livre quanto ela, doía porque queria experimentar aquele amor mais puro, mas chegara tarde demais.

Os lábios se encontraram, o gosto salgado das lágrimas e amargo do café misturados, mas tão doce quanto pode ser o beijo de uma despedida.

 

cenas finais

Ela dançava nua ao som de Belchior e à meia luz do corredor, estava compenetrada no momento, uma feição serena. Ele a observava do escritório, como que na surdina. Era uma cena quase idílica e ele sorriu. Era uma inspiração. Há tempos não escrevia, há tempos não escrevia sobre ela, sobre eles.

As palavras vieram, saltando em sua mente. A silhueta dela, desenhada na parede em labaredas. A música criando um ar fértil. Um momento suave. Escrevia, sem ver o que se formava. Não conseguia tirar os olhos da bela figura, ou melhor, da bela cena. Era como um filme antigo de romance. Um clássico.

Ela. Ela. Ela. Tão em si, quase um transe, uma meditação. O coração se transbordou. E a tela de fez em poesia.

Sentiu vontade de levantar e ir até ela, deslizar as mãos em sua cintura, puxá-la para si. Sussurrar a paixão que lhe brotava. Sentir o arrepio da pele dela. Mas era egoísta tirá-la daquele momento. Continuou sorrindo, expectador.

“Oi”, sorriu tímida pela porta

Ele não percebera que ela fora até ali.

“Terminou? Vamos tomar um banho, um vinho?”Ele riu da falsa timidez no tom dela.

Era um convite, agora poderia participar. As mãos se entrelaçaram. E o filme chegou ao fim, sem cenas ao fim dos créditos.